não sei se existe um momento para decidir: vou ao cemitério.
não deve ter, acho que você sente aquela coisa e vai, se vai ser bom ou não, é outra história, se é que pode ser bom.
assisti CSIs suficientes na vida pra ter a nítida ideia do que realmente está lá, meu pai não está lá, porque também tenho conhecimento da "verdade" dos cristãos e toda aquela coisa de corpo e alma e blábláblá....
não sei ao certo o que esperava encontrar, se de repente teria um alívio em ver aquilo tudo ou acreditar de uma vez por todas que não era sonho, sei lá, impossível verbalizar qual eram os pensamentos pra se chegar nesse momento.
mas fui, dia dos pais, um ano exatamente que havia falado com ele pela última vez, cemitério cheio, coração batendo forte, ela segurou minha mão e disse que tudo ia ficar bem, eu olhava pra ela, e o sol que vinha de trás fazia ela ficar apenas uma silhueta no céu azul, com cabelos espetados brilhantes, e eu não me sentia ali, meu corpo queimava e parecia que um peso de milhões de kilos estava bloqueando meu pulmão, quanto mais andava por entre a grama, mais díficil ficava de respirar, sentia o suor descer pelas costas, e a mão dela apertando a minha cada vez mais.... ela achou e apontou, quando vi a placa e as flores meu coração disparou, senti que ele ia sair do peito, comecei a recuar e ela me abraçou, senti o braço quente e peludinho encostado no meu, e a voz rouca e embargada de lágrimas falando que estava tudo bem, olhei pra baixo e via minhas lágrimas descerem pela sininho tatuada com perfeição e eu nem sabia o que pensar, eu queria correr, muito.
mas eu estava ali, era pra ver não era, então eu precisava ver, acho que de repente, eu precisava de uma prova de que não estava louca e que tudo havia mesmo acontecido, e quando li o nome, a data, a frase que demoramos tanto pra escolher, mas pareceu cair tão bem... quando vi aquilo tudo, o dia escureceu.
minhas pernas amoleceram e eu chorei, pura e simples, chorei, chorei, chorei e chorei, não precisei de mais nada, não precisava de abraço, não precisava de amor, eu só precisava chorar.
chorei e fiquei de pé de frente ao túmulo do meu pai e chorei, não tinha vontade de falar, não sentia necessidade de mais nada, só chorar.
fiquei ali por, não sei, talvez vinte minutos, e de repente o choro acabou, parei de chorar, limpei os óculos, coloquei a tulipa vermelha que havia comprado, uma única tulipa com um lacinho verde, cor do palmeiras, coloquei sobre o túmulo e sai.
ela me olhava de longe, cabelos voando com o vento forte, cigarro aceso com um ar de blasé quase entediante, um sorriso vermelho e marcado, chorado e soluçado, sofrido, talvez pela ideia do que virá, sentimento dolorido saber que isso vai chegar, mais rápido do que se imagina, ter alguém doente terminal é a certeza da dor, impactante e furiosa.
...
bom? não sei, hoje pela primeira vez não chorei quando acordei, não senti aquele aperto ao ver a foto, melhorei?? como saber, acho que não tem isso, dias ruins, dias bons, dias....
não sei qual é a sensação.
acho que renasci.
no itunes: rem - losing my religion
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